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Na vida, quem não é senhor é escravo

  • Redação
  • 20/07/2021
  • 08:00

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Montou o cavalo como quem pula na piscina num dia frio – sem pensar. Já havia montado outras vezes, mas agora era diferente. Tudo diferente. Por dentro e por fora. Havia chorado, havia chovido, o terreno estava escorregadio. O tempo fechado. Fazia frio e ela suando. Nervosa, se perguntava por que essa ideia insana de se expor tanto. Subir num animal tão maior e mais forte que ela.

O mal já estava feito. Havia montado. Mãos trêmulas nas rédeas. Começou o passeio ainda sem entender o que estava fazendo ali. O vento gelado chicoteava o seu rosto. Os olhos oscilavam entre olhar o terreno tortuoso e o infinito, o horizonte.

O cavalo parecia não aceitar carregar aquele peso morto sobre si. Soberano, grande, impiedoso, imprimia seu próprio ritmo e ia onde queria. Ele era o livre. Bicho solto. Subiu um pequeno morro com terreno de cascalho ainda molhado pela chuva do dia anterior. Molhada, também, a pele dela. Suava como quem está doente, com febre. Mas a doença dela era outra. Era medo da vida.

Tem coisa mais paradoxal que isso? Tudo que fazemos desde o nascimento é para nos mantermos vivos, mas é justamente ela quem mais tememos, a vida.

Os dois estavam cada vez mais distantes de casa. Mais perdida, menos segura, mais distante da casa com todas as suas colunas de sustentação; mais distante do lugar que era mais que abrigo, era refúgio. Parece que ele sabia que precisa levá-la para um lugar distante para que ela entendesse que nada a sustentava senão ela mesma.

A vista, os morros, as árvores, o pequeno córrego que atravessaram foram transformando o medo desse lugar numa felicidade que ela ainda não conhecia. Aos poucos parou de calcular o quanto se machucaria na queda que aconteceria mais cedo ou mais tarde. O suor deu lugar a uma sensação de conforto e aconchego da blusa de lã que usava. Para ela o passeio começou ali, depois que ela parou de calcular as pequenas tragédias iminentes.

Você está tranquilo, calmo e um telefonema com uma notícia ruim te derruba. Um pedido de divórcio que você não esperava, a morte de alguém que você ama. Sem aviso prévio, você cai do cavalo e se quebra inteiro.

Lá estava ela aproveitando a paisagem. Esquecida, por alguns instantes, dos riscos. Mas, o cavalo disparou e ela também! Coração em desalinho, o suor e o tremor voltaram. O pânico estava lá. A boca seca. Embora em franca disparada, ela teve a sensação de que o tempo parou. Avaliou a própria vida, lembrou dos saltos, das quedas e se deu conta de que não houve tragédia que superasse a capacidade dela de se levantar.

A queda iminente trazia consigo a certeza de que se levantaria de novo, e de novo, e de novo… Voltou a si. O cavalo em disparada. Segurou as rédeas com as mãos firmes. Ela agora amansava o cavalo porque havia refreado a si. Durante a batalha pensava: na vida quem não é senhor é escravo. Ela era senhora de si, do cavalo, do caminho.

O cavalo agora a respeitava, seguia fielmente suas coordenadas. Voltaram para casa, exaustos e renovados. Se olharam, cúmplices. Na vida quem não é senhor é escravo.

(*) Escritora

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