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Delegado vítima de racismo recebe pai e irmão de ofensor

  • Orlando Pontes
  • 11/08/2020
  • 17:32

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Em nota, Ricardo Viana disse que abrirá processo contra Pedro Henrique Martins Mendes. Foto: Reprodução/g1

No sábado (8), o delegado da 3ª Delegacia de Polícia do Distrito Federal (Cruzeiro), Ricardo Viana, publicou em suas redes sociais uma denúncia de que fora vítima de racismo. Ele contou, “não como delegado, mas como negro, cidadão e pai de duas filhas também negras”, o que ocorrera na noite de sexta-feira (7), quando foi à lanchonete McDonald’s, na QI 23, do Lago Sul.

“Fui surpreendido por um indivíduo aparentemente fora de si, o qual, por motivos que até o momento desconheço, passou a empurrar-me e ofender-me, chamando-me de “macaco”, “viado” e falou que iria me “pegar”. Continuamente, arremessou um pé de sua chinela em minha direção”, relatou Ricardo Viana.

No mesmo texto, o delegado diz que populares tentaram conter a confusão e que ele se identificou como policial e deu ordem de prisão ao agressor, que tentou fugir, mas acabou preso em flagrante por uma equipe da Polícia Militar.

Pedro Henrique Martins Mendes foi encaminhado à  1ª DP, foi autuado por injúria, injúria racial, contravenção, vias de fato e porte de drogas (os PMs encontraram dois cigarros de maconha no interior do seu veículo). O suspeito tem histórico de violência e já praticou atos de racismo contra outros negros.

Processo – Liberado no domingo após pagar fiança de R$ 3.117, Pedro Henrique Martins Mendes também se valeu de uma nota para pedir desculpas ao delegado. Nesta terça-feira (11), Ricardo Viana se encontrou com o pai e o irmão do agressor, que foram se retratar. Ao reiterar que manterá o processo contra o agressor, Ricardo Viana publicou o seguinte texto:

“Hoje, recebi o irmão e o pai da pessoa que ofendeu a mim e a minha filha na última sexta-feira (7). Condicionei esta conversa a nada pedirem em relação ao processo que há de vir. Ambos se retrataram em nome do ofensor. Neste momento, creio que não há espaço para se alimentar o ódio. Conversamos de forma polida, assim como três pessoas diferentes e tolerantes devem se ater.

“Não sei o porquê de Deus me colocar naquele cenário com uma pessoa que jamais vi e acontecer o que todos já sabem, mas a minha voz ecoou muito além do que eu imaginava. Talvez por ocupar um cargo em uma das melhores polícias judiciárias do País. Sim, talvez.

“Uma coisa é certa: não nasci Delegado, mas sim, negro, caçula de oito irmãos, filho de uma Raimunda e de um Antônio, ambos nordestinos, os quais migraram para esta cidade em busca de melhores condições de vida. Aqui nasci e pretendo viver como cidadão, isto é, em igualdade com os demais que aqui habitam.

“Passamos uma semana com incidentes incomuns, Matheus, Ricardo, Francisco e muitos outros que estão no anonimato foram subjugados, simplesmente pelo tom da pele. De onde vem tanto ódio? Sem dúvida, este debate encontra-se aberto há 131 anos, momento em que meus antepassados, escravos, ou melhor, escravizados, foram “libertados” e até hoje, nós, negros, lutamos por direitos básicos.

“Creio que chegou a hora não de incrementar, mas de incendiar este tema, para que possamos, um dia, termos uma sociedade mais justa e igualitária. A minha filha, meus sinceros sentimentos de lhe ter exposto o mundo preconceituoso de forma tão truculenta. Aos racistas, o meu silêncio. Respeito!”.

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