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Devagar com o andor. Quem cresceu e venceu foi Lula

  • Júlio Miragaya
  • 04/10/2022
  • 17:06

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Júlio Miragaya – Foto: Michael Melo/Metrópoles

Júlio Miragaya (*)

Às vezes, as análises eleitorais costumam ser feitas eivadas de emoção ou de expectativas frustradas, e carecem de objetividade. É o caso do 1º turno da eleição presidencial deste ano, em que alguns analistas “de botequim” chegaram a enxergar uma vitória “moral” de Bolsonaro.

Vamos,então,aos fatos: Lula obteve 57,3 milhões de votos (6,2 milhões a mais do que Bolsonaro (51,1 milhões). Bolsonaro, líder inconteste da direita brasileira, viu seu eleitorado crescer 3,64% em relação a 2018, quando obteve 49,3 milhões de votos. Ou seja, 1,8 milhão a mais.

Ocorre que os votos válidos cresceram 10,44% (de 107,0 milhões para 118,2 milhões). O que cresceu muito (82,68% em relação a 2018)foram os votos no candidato do PT. Haddad obteve 31,2 milhões de votos em 2018 e Lula amealhou 57,3 milhões agora, ampliando em 26 milhões o seu eleitorado.

Para o 2º turno, o que estará em disputa? Foram 32,77 milhões de abstenções (20,9% do eleitorado), percentual muito próximo dos 19,4% de 2014 e dos 20,3% de 2018. Aabstenção se distribui uniformemente pelo território nacional, e não é daí que advirão alterações substantivas.

Foram 5,45 milhões de votos nulos e em branco, muito abaixo dos 11,1 milhões de 2014 e dos 10,3 milhões de 2018. Também não será daí que virá qualquer virada. O que pode alterar o resultado final são os 9,9 milhões de votos conferidos aos outros 9 candidatos. E como se distribuíram esses votos?

Nada menos que 86% deles (8,5 milhões) foram conferidos a Simone Tebet e Ciro Gomes. A despeito das rusgas de campanha, são candidatos mais próximos de Lula do que da extrema-direita. A emedebista vem de um enfrentamento feroz contra Bolsonaro na CPI da covid no Senado e Ciro é do PDT, aliado histórico do PT.

Tudo leva a crer que MDB e PDT declararão voto em Lula, assim como Simone. E, espera-se, Ciro. Já o 1,25 milhão de votos dados a D’Ávila, Soraya e Kelmon tendem a ir para Bolsonaro. Há ainda 150 mil votos a candidatos de partidos nanicos, de extrema esquerda. Em suma, não havendo maiores surpresas, como uma inesperada, forte e direcionada redução das abstenções, é de se prever que Lula amplie sua vantagem para algo entre 8 e 10 milhões de votos.

E de onde veio,então, a tal sensação de derrota da esquerda entoada por alguns analistas? Veio do que previam as pesquisas. Ora, as pesquisas acertaram no percentual de votos em Lula, oscilando entre 48% e 51% (Lula obteve 48,45%).

Erraram feio foi no percentual atribuído a Bolsonaro (oscilava entre 38% e 41% e obteve 43,2%. Tal diferença decorreu, sobretudo, do erro na expectativa de voto nos três grandes colégios da região Sudeste, provavelmente de eleitores conservadores, insatisfeitos com o governo, que na “hora H”, tomados pelo antipetismo, decidiram votar em Bolsonaro, como em 2018.

De todo modo, Bolsonaro caiu nos três estados: em São Paulo, de 53% para 47,7%; no Rio, de 59,8% para 51,1%; e, em Minas, de 48,3% para 43,6%. Já o candidato do PT subiu em todos: em São Paulo, de 16,4% para 40,9%; no Rio, de 14,7% para 40,7%; e em Minas, de 27,6% para 48,2%.

Eram previsíveis as vantagens de Bolsonaro nas conservadoras regiões Sul (3,1 milhões de votos) e Centro-Oeste (1,4 milhão), em que o agronegócio tem forte presença. Como também eram previsíveis a pequena vantagem de Lula na região Norte (200 mil votos) e a ampla vantagem no Nordeste (13,9 milhões de votos).

Já no Sudeste, a vantagem de 2,4 milhões a favor de Bolsonaro pode até ser revertida no 2º turno, caso o PT e o PSDB negociem acordo em São Paulo e Rio Grande do Sul.O 1,7 milhão de votos de Edegar (PT) são mais que suficientes para tirar a diferença de 680 mil votos que separou Leite (PSDB) do bolsonarista Onix, assim como os 4,3 milhões de votos de Garcia (PSDB) são suficientes para tirar a diferença de 1,54 milhão de votos que separou Haddad (PT) do bolsonarista Tarcísio. A conferir.

Portanto, devagar com o andor que o santo é de barro!

(*) Doutor em Desenvolvimento Econômico Sustentável, ex-presidente da Codeplan e do Conselho Federal de Economia

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